sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror

Para os americanos, estar em uma guerra é algo tão presente em suas vidas que praticamente toda geração teve a "sua" guerra (e seus filmes a respeito). Foram vários os filmes sobre a II Guerra Mundial, sobre a Guerra da Coréia, do Vietnã e assim por diante. A atual Guerra do Iraque já dura tempo suficiente para ter se tornado um novo "gênero" de filme. O mais recente exemplar, e um dos melhores, é "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker, 2009), dirigido por Kathryn Bigelow. Esta obsessão tão americana pela guerra é explicada em uma frase que abre o filme: "O furor da batalha é um vício potente e frequentemente letal, porque a guerra é uma droga".

Em "Guerra ao Terror", este "furor" não é representado por cenas cheias de ação, pelo contrário. O filme foca nas atividades de um esquadrão antibombas trabalhando em Bagdá. A adrenalina, no caso, é resultado do fato de que cada pedaço de papel, cada caixa largada em uma rua da cidade iraniana pode esconder uma bomba, e os homens responsáveis por desativá-las são altamente especializados e, frequentemente, viciados nessa adrenalina. É o caso do sargento William James (Jeremy Reneer, indicado ao Oscar de Melhor Ator, merecidamente), típico "caipira" do interior dos Estados Unidos. Ele faz parte de um trio composto pelo experiente e cauteloso Sargento Sanborn (Antonhy Mackie) e o jovem Especialista Eldridge (Brian Geraghty). O grupo acabou de perder um líder querido e competente (na fantástica sequência que abre o filme) e não vê com bons olhos as atitudes irresponsáveis e temerárias de James. Ele não obedece ordens, corre riscos desnecessários e coloca todos em risco, mas é inegável que ele é bom no que faz (até porque, como ele mesmo diz, a melhor maneira de fazer este serviço e não morrendo).

Bigelow, a diretora, e o roteirista Mark Boal deixam de lado as questões políticas envolvidas no conflito e focam nos homens que o vivem dia após dia. O elenco tem participações especiais e surpreendentes de atores como Guy Pierce, Ralph Fiennes, Evangeline Lili e David Morse, e é interessante como Bigelow brinca com o fato deles terem rostos conhecidos. Quando um (ou mais, não vou revelar quem) deles morre como se fosse um figurante qualquer, o choque é ainda maior para o espectador. Isso ajuda a mostrar como a vida, em uma guerra, é frágil. O roteirista acompanhou pessoalmente várias missões destes esquadrões antibomba e as transformou na trama do filme, com grande realismo. Bigelow por vezes abusa do recurso da "câmera nervosa" tão usado ultimamente, mas ela consegue criar sequencias de suspense ou emoção primorosas, com poucos recursos. Há uma ótima sequência que envolve um duelo entre atiradores "sniper", trocando tiros a centenas de metros de distância, que transformam a guerra em uma espécie de jogo de xadrez, metódico, paciente e sangrento. A sequência também serve para aproximar os personagens de forma inesperada.

Mas talvez a cena mais interessante do filme é a que se passa em um supermercado americano. Um soldado, de volta para casa, fica parado diante de uma gôndola enorme, com diversos tipos e marcas de cereais matutinos, e não sabe o que fazer. Uma ação tão cotidiana, após a vivência de uma guerra, se torna estranha e acaba revelando a futilidade de alguns dos "confortos" a que estamos acostumados. Como se milhares de vidas estivessem sendo destruídas inutilmente, apenas para defender os supermercados cheios de produtos do ocidente.

"Guerra ao Terror" está indicado a nove Oscars, com Kathryn Bigelow despontando como favorita ao prêmio de direção.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Consumido pelo Ódio

Dirigido por Yoishi Sai e contando com Takeshi Kitano no papel principal, o filme é uma deprimente repetição de uma mesma história. Kitano interpreta Kim Shumpei, um imigrante coreano que chega a Osaka, Japão, em 1923. Shumpei é um homem brutal que, logo nas primeiras cenas, é visto batendo e violentando a própria esposa, de quem ficou afastado vários anos. Ele então abre uma fábrica de "kamaboko" (massa de peixe) e, usando métodos violentos para explorar os trabalhadores, muitos deles seus filhos, consegue se enriquecer. Violento e machista, ele tem várias amantes e instala uma delas em uma casa em frente à sua. Sua esposa, filhos e filhas crescem sob constante ameaça de espancamento ou mesmo morte, como quando uma de suas filhas, após uma surra do pai, tenta se matar.
Há uma sensação constante de estrangulamento amplificada pela própria cenografia. O filme é quase todo passado em uma mesma rua (cenográfica) de Osaka, onde Shumpei é ao mesmo tempo respeitado e temido. Pode parecer uma versão japonesa de "O Poderoso Chefão", mas o problema é que o filme bate sempre na mesma tecla. Há uma série de sequências repetitivas em que Shumpei entra em um lugar e quebra tudo e todos que vê pela frente. Sua esposa tem a tradicional submissão feminina oriental, mas mesmo seus filhos não são páreos para ele. O que mais se ressente é Massao (Hirofumi Arai), que é quem narra o filme. Após a tentativa de suicídio da irmã, Massao tenta esfaquear o pai em um banho público e acaba com o nariz e algumas costelas quebradas. Outro filho de Shumpei se torna comunista e acaba preso pela polícia após um atentado. Para ampliar o clima depressivo do filme, uma das amantes de Shumpei tem um tumor do cérebro e se torna totalmente dependente dos outros para comer, se limpar e fazer as necessidades. As únicas cenas em que Shumpei demonstra algum traço humano, aliás, são as que o mostram tomando conta da amante doente. De resto, é uma sucessão de brigas, espancamentos, gritaria e estupros.
Takeshi Kitano, que também é um talentoso diretor, ator e editor de filmes, dá uma interpretação impressionante. Sua presença em tela, sem dúvida, é a melhor coisa do filme. O roteiro é baseado no livro do nipo-coreano Sogin Yan que tenta, em alguns momentos, levantar temas como mostrar a situação da comunidade coreana no Japão, sua dificuldade de adaptação e a saudade da terra pátria. Mas, no fundo, "Consumido pelo Ódio" é apenas a história de um homem cruel que leva sua maldade, literalmente, até o túmulo, em longas duas horas e vinte minutos de duração.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Indicados OSCAR 2010

Foram anunciadas hoje de manhã em Los Angeles as indicações ao prêmio Oscar, da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas. Este ano a novidade é que são dez os indicados ao prêmio de Melhor Filme. Provavelmente uma jogada de marketing para a) tentar deixar o prêmio menos previsível e b) ajudar a campanha publicitária de mais filmes todo ano (uma indicação ao Oscar é garantia de aumento na bilheteria em milhões de dólares).

Dois filmes empataram com nove indicações cada, "Avatar", de James Cameron, e "Guerra ao Terror", de Kathryn Bigelow (que já foi casada com Cameron). Logo atrás, com oito indicações, vem "Bastardos Inglórios", de Quentin Tarantino. Bigelow ganhou o prêmio do sindicato dos diretores e é a provável vencedora do Oscar. "Avatar" é o filme tecnicamente mais ousado, o orçamento mais caro e (o mais importante no cinema americano), a maior bilheteria de todos os tempos, e ainda continua como favorito a Melhor Filme de 2010. Entre os outros indicados, boa surpresa e escolha foi "Distrito 9", uma ficção científica inteligente e implacável em sua alegoria ao racismo na África do Sul. Falando nisso, "Invictus", de Clint Eastwood, que trata de uma passagem no governo de Nelson Mandela, não foi indicado a Melhor Filme ou a Melhor Diretor. Levou as indicações a Morgan Freeman como Melhor Ator e a Matt Damon como Ator Coadjuvante (a aposta certa nesta categoria é Christoph Waltz, simplesmente perfeito em "Bastardos Inglórios"). Jeff Bridges e, quem diria, Sandra Bullock são considerados favoritos ao prêmios de melhor Ator e Atriz, respectivamente.

O filme animado da PIXAR, "Up - Altas Aventuras", conseguiu o feito de ser indicado tanto a Melhor Filme como a Melhor Animação, além das categorias Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. Há quem diga, com certa razão, que "Avatar", com sua profusão de imagens animadas criadas em computação gráfica, poderia concorrer na categoria Melhor Animação. Difícil de entender, no entanto, é a inclusão do filme na categoria "Melhor Fotografia".

O Brasil ficou de fora na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. O filme argentino "O Segredo de Seus Olhos", de Juan José Campanella (o mesmo diretor de "O Filho da Noiva") está entre os favoritos.

"2012", surpreendentemente, não está entre os indicados ao prêmio de Melhores Efeitos Visuais. Os candidatos são "Avatar", o surpreendente "Distrito 9" e o ótimo "Star Trek".

A cerimônia de entrega do Oscar será realizada dia 7 de março, domingo, em Los Angeles.

Confira os indicados ao Oscar 2010:

Melhor Filme

Avatar
Um Sonho Possível
Distrito 9
Sedução
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa
Um Homem Sério
Amor sem Escalas
Up – Altas Aventuras

Melhor Diretor

Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
James Cameron (Avatar)
Jason Reitman (Amor Sem Escalas)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Lee Daniels (Preciosa)

Melhor Ator

Jeff Bridges (Coração Louco)
Morgan Freeman (Invictus)
Matt Damon (O Desinformante)
Jeremy Renner (Guerra ao Terror)
George Clooney (Amor Sem Escalas)
Colin Firth (Direito de Amar)

Melhor Atriz

Sandra Bullock (Um Sonho Possível)
Meryl Streep (Julie & Julia)
Carey Mulligan (Educação)
Helen Mirren (The Last Station)
Gaboury Sidibe (Preciosa)

Melhor Ator Coadjuvante

Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)
Woody Harrelson (O Mensageiro)
Matt Damon (Invictus)
Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso)
Christopher Plummer (The Last Station)

Melhor Atriz Coadjuvante

Mo’Nique (Preciosa)
Anna Kendrick (Amor Sem Escalas)
Vera Farmiga (Amor Sem Escalas)
Maggie Gyllenhaal (Coração Louco)
Penelope Cruz (Nine)

Melhor Roteiro Original

Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Mark Boal (Guerra ao Terror)
Joel e Ethan Coen (Um Homem Sério)
Alessandro Camon e Oren Moverman (O Mensageiro)
Bob Peterson e Pete Docter (Up – Altas Aventuras)

Melhor Roteiro Adaptado

Jason Reitman e Sheldon Turner (Amor Sem Escalas)
Neill Blomkamp (Distrito 9″)
Nick Hornby (Educação)
Geoffrey Fletcher (Preciosa)
Jesse Armstrong, Samon Blackwell, Armando Iannucci e Tony Roche (In the Loop)

Melhor Animação

Coraline e o Mundo Secreto
O Fantástico Sr. Raposo
A Princesa e o Sapo
The Secret of Kells
Up – Altas Aventuras

Melhor Direção de Arte

Rick Carter, Robert Stromberg, Kim Sinclair (Avatar)
Dave Warren, Anastasia Masaro, Caroline Smith (O Mundo Imáginário do Dr. Parnassus)
John Myhre, Gordon Sim (Nine)
Sarah Greenwood, Katie Spencer (Sherlock Holmes)
Patrice Vermette, Maggie Gray (The Young Victoria)

Melhor Fotografia

Mauro Fiore (Avatar)
Bruno Delbonnel (Harry Potter e o Enigma do Príncipe)
Barry Ackroyd (Guerra ao Terror)
Robert Richardson (Bastardos inglórios)
Christian berger (A Fita Branca)

Melhor Figurino

Janet Patterson (O Brilho de uma Estrela)
Catherine Leterrier (Coco Antes de Chanel)
Monique Prudhomme (O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus)
Colleen Atwood (Nine)
Sandy Powell (The Young Victoria)

Melhor edição

Stephen Rivkin, John Refoua e James Cameron (Avatar)
Julian Clarke (Distrito 9)
Bob Murawski e Chris Innis (Guerra ao Terror)
Sally Menke (Bastardos Inglórios)
Joe Klotz (Preciosa)

Melhor Maquiagem

Aldo Signoretti e Vittorio Sodano (Il Divo)
Barney Burman, Mindy Hall e Joel Harlow (Star Trek)
Jon Henry Gordon e Jenny Shircore (The Young Victoria)

Melhor Trilha Original

James Horner (Avatar)
Alexandre Desplat (O Fantástico Sr. Raposo)
Marco Beltrami e Buck Sanders (Guerra ao Terror)
Hans Zimmer (Sherlock Holmes)
Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras)

Melhor Canção Original

Almost There, de A Princesa e o Sapo (Música e Letra de Randy Newman
Down in New Orleans, de A Princesa e o Sapo (Música e Letra de Randy Newman
Loin de Paname, de Paris 36 (Música de Reinhardt Wagner; Letra de Frank Thomas)
Take It All, de Nine (Música e Letra de Maury Yeston)
The Weary Kind (Theme from Crazy Heart), de Louco Amor (Música e Letra de Ryan Bingham e T-Bone Burnett)

Melhor Edição de Som

Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle (Avatar)
Paul N.J. Ottosson (Guerra ao Terror)
Wylie Stateman (Bastardos Inglórios)
Mark Stoeckinger e Alan Rankin (Star Trek)
Michael Silvers and Tom Myers (Up – Altas Aventuras)

Melhor Mixagem de Som

Christopher Boyes, Gary Summers, Andy Nelson e Tony Johnson (Avatar)
Paul N.J. Ottosson e Ray Beckett (Guerra ao Terror)
Michael Minkler, Tony Lamberti e Mark Ulano (Bastardos Inglórios)
Anna Behlmer, Andy Nelson e Peter J. Devlin (Star Trek)
Greg P. Russell, Gary Summers e Geoffrey Patterson (Transformers: A Vingança dos Derrotados)

Melhores Efeitos Visuais

Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones (Avatar)
Dan Kaufman, Peter Muyzers, Robert Habros e Matt Aitken (Distrito 9)
Roger Guyett, Russell Earl, Paul Kavanagh e Burt Dalton (Star Trek)

Melhor Filme Estrangeiro

Ajami (Israel)
El Secreto de Sus Ojos (Argentina)
A Teta Assustada (Peru)
O Profeta (France)
A Fita Branca (Alemanha)

Melhor curta de animação

French Roast, de Fabrice O. Joubert
Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty, de Nicky Phelan e Darragh O’Connell
The Lady and the Reaper (La Dama y la Muerte), de Javier Recio Gracia
Logorama, de Nicolas Schmerkin
A Matter of Loaf and Death, de Nick Park

Melhor Curta-metragem de Ficção

The Door, de Juanita Wilson e James Flynn
Instead of Abracadabra, de Patrik Eklund e Mathias Fjellström
Kavi, de Gregg Helvey
Miracle Fish, de Luke Doolan e Drew Bailey
The New Tenants, de Joachim Back e Tivi Magnusson

Melhor Documentário

Burma VJ, de Anders Østergaard and Lise Lense-Møller
The Cove
Food, Inc., de Robert Kenner and Elise Pearlstein
The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers, de Judith Ehrlich and Rick Goldsmith
Which Way Home, de Rebecca Cammisa

Melhor Documentário de Curta-metragem

China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province, de Jon Alpert e Matthew O’Neill
The Last Campaign of Governor Booth Gardner, de Daniel Junge e Henry Ansbacher
The Last Truck: Closing of a GM Plant, de Steven Bognar e Julia Reichert
Music by Prudence, de Roger Ross Williams e Elinor Burkett
Rabbit à la Berlin, de Bartek Konopka e Anna Wydr

domingo, 31 de janeiro de 2010

Invictus

Nelson Mandela foi uma das figuras mais importantes do século XX. Após anos preso sob o regime de segregação na África do Sul, ele foi solto e eleito Presidente da República em 1994 na primeira eleição multirracial do país. Muitos projetos cinematográficos sobre sua vida foram imaginados, vários deles envolvendo a figura do ator Morgan Freeman, mas o filme que chega às telas agora através das mãos do diretor Clint Eastwood tem um recorte diferente do esperado. Ao invés de uma biografia tradicional de Nelson Mandela, o filme de Eastwood (baseado no livro de John Carlin) mostra o líder negro através de um esporte pouco conhecido no Brasil, o rugby.

A primeira cena explica muita coisa. De um lado da rua há uma escola rica para brancos, que treinam rugby no belo gramado. Do outro lado da rua há um pobre campo de futebol onde jogam os negros. Brancos e negros são atraídos por uma carreata que passa na rua. Um dos carros carrega Nelson Mandela, recém libertado da prisão. O rugby era o jogo preferido dos brancos da África do Sul. As cores verde e ouro do time estavam associados ao regime racista do aparthaid e eram odiadas pelos negros. Com a vitória de Mandela nas urnas, esperava-se que o time de rugby (chamado Springbok, que é uma espécie de antílope, símbolo do time) mudasse suas cores, seu emblema e seu nome. Mandela, político inteligente, foi contra. "Não vamos nos tornar aquilo que os brancos esperam de nós", diz ele. Ao invés de dissolver o time, Mandela se tornou um fã do esporte e viu na Copa do Mundo de Rugby, que aconteceria em 1995 na África do Sul, uma oportunidade de unir brancos e negros e mostrar ao mundo o que o país era capaz de fazer. Mandela então pede a ajuda do capitão do time, François Pienaar (Matt Damon), para tornar o esporte mais popular entre os negros e servir de inspiração para o país.

Clint Eastwood dirige de forma competente, mas a verdade é que o filme é de Morgan Freeman. Ele está tranquilo como Nelson Mandela, de quem empresta o carisma e devolve sua calma dignidade como ator. O filme é lento e por vezes calmo demais. As melhores cenas, curiosamente, acontecem entre os coadjuvantes, os seguranças brancos e negros que são obrigados a conviver e planejar juntos a segurança do presidente. Matt Damon está bem como o capitão do time, embora um tanto distante do personagem, sem estar de corpo e alma no filme. Há várias cenas de jogos de rugby, com suas regras relativamente desconhecidas pelos brasileiros, em cenas passadas em estádios lotados por torcidas geradas em computação gráfica.

Não é um grande filme, mas é uma curiosa mistura de biografia política com filme de esporte, com suas fórmulas conhecidas, cenas em câmera lenta e final festivo. Serve também como curiosidade, em pleno ano de Copa do Mundo (de Futebol), na África do Sul, ver um time ser campeão usando uniforme verde e amarelo.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Coco antes de Chanel

O visual de "Coco antes de Chanel", a biografia dos primeiros anos da famosa estilista francesa, é impecável. A direção de fotografia de Christophe Beaucarne compõe planos que mais parecem tirados de quadros de Monet ou Renoir. Igualmente notáveis são o trabalho de figurino e direção de arte, nos transportando para a França no começo do século XX, na mudança das carruagens para os carros a motor, dos lampeões para as lâmpadas elétricas. É uma produção extremamente caprichada, sem dúvida.

Já o roteiro, infelizmente, deixa a desejar. A intenção é mostrar os anos anteriores ao sucesso alcançado pela estilista Gabrielle "Coco" Chanel (interpretada por Audrey Tautou), de origem pobre, uma órfã abandonada pelo pai em um orfanato católico. Coco e sua irmã se tornam cantoras em uma casa de shows em que convivem com prostitutas e tentam evitar ser confundidas com elas. Coco é uma moça inteligente mas, aparentemente, "sem sal". Vê o mundo com os olhos práticos e cínicos de quem não espera ajuda de ninguém. Ela atrai a atenção de um nobre rico chamado Étienne Balsan (Benoit Poelvoorde) e, em uma relação prática de troca, ela passa a viver sob seu teto como sua amante e "divertimento" particular. Diferente das mulheres da época, Coco não gostava de usar as roupas apertadas e cheias de enfeites da moda e nem cavalgava sentada de lado, como "apropriado" para uma mulher. Na enorme casa de Balsan a vida é uma sucessão de festas e atividades fúteis, com amigos e parasitas convivendo com jockeys e suas amantes. Coco trava amizade com Emilienne (Emmanuelle Devos), uma atriz que adora as roupas de Coco e seus chapéus, feitos por ela mesma. Coco também se apaixona por um inglês chamado Arthur Capel (Alessandro Nívola), que está com um casamento de conveniência marcado (o que faz com que Chanel prometa que nunca irá se casar com ninguém).

Dirigido por Anne Fontaine, o filme é extremamente "agradável", mas nunca chega a decolar. Tautou (que me lembrou Audrey Hepburn), tenta dar um pouco de humanidade à fria Coco Chanel, mas creio que o roteiro não faça justiça à vida da estilista. Para uma mulher aparentemente tão à frente do seu tempo, ela parece depender demais da ajuda de um homem para sobreviver, seja como amante de Balsan ou, mais tarde, de Arthur Capel. Seu lado estilista é visto de forma superficial, como mera criadora de chapéus para as amantes e frequentadoras do castelo de Balsan. Mais para o final ela subitamente já é vista como a que viria ser uma das estilistas mais influentes do mundo da moda e o filme termina. Mas, repito, os méritos técnicos e o elenco do filme o fazem parecer melhor do que realmente é. Vale mais como um retrato de uma época do que como a biografia de uma pessoa.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Partir

"Partir" não é exatamente uma história de amor. É mais sobre a violência da tentativa de mudança, principalmente quando ela é inesperada, não planejada. Suzanne (a ótima Kristin Scott Thomas) é uma mulher aparentemente bem casada, com dois filhos adolescentes, que mora do sul da França. Fisioterapeuta, ela resolve voltar a trabalhar e o marido devotado (um médico muito bem sucedido) constrói para ela um consultório particular.

Acontece que Suzanne acaba conhecendo Ivan (Sergi Lopes), um pedreiro espanhol , e uma paixão avassaladora acontece entre os dois. As cenas de sexo do filme lhe renderam uma censura de 18 anos, embora não seja nada de pornográfico. Suzanne, descontrolada pela paixão, acaba contando tudo para o marido que, obviamente, não fica feliz com a situação. Ela até lhe promete terminar tudo, e ele a aceita de volta, mas a atração por Ivan é mais forte e ela volta a procurá-lo. O que acontece a seguir pode ser descrito como uma sucessão de exageros da parte de todos os envolvidos e, a bem da verdade, o filme se transforma rapidamente em uma tragédia que me pareceu um pouco forçada. Suzanne parece possuída por uma força maior do que qualquer razão e provoca no marido um misto de descrença, desespero e por fim sentimento de posse e orgulho ferido. Ela abandona o lar e chega a passar dias de sonho com Ivan e com a filha pequena dele na Espanha, mas então descobre que o marido não vai lhe facilitar a vida de forma alguma. Influente, ele até consegue fazer com que Ivan perca seu emprego em obras da prefeitura. Já Suzanne não tem melhor sorte como fisioterapeuta autônoma, e fica tentando desesperadamente receber sua parte do divórcio.

Fica difícil ter empatia com qualquer dos personagens. Podemos entender tanto a paixão de Suzanne quanto o sentimento de traição do marido, mas as ações de ambos são o caminho certo para que nada termine bem. "Partir" foi escrito e dirigido por Catherine Corsini, e deixa um gosto amargo na boca do espectador.


Trailer contém SPOILERS, esteja avisado

domingo, 24 de janeiro de 2010

Amor sem Escalas

Ryan Bingham (George Clooney) se orgulha de dizer que pode carregar toda sua vida em uma maleta. Em palestras motivacionais ele pede para a platéia se imaginar pegando tudo que elas têm em casa, começando pelas pequenas coisas encontradas nas gavetas, e colocando dentro de uma mala. "Movimento é vida", diz ele. Fica difícil se movimentar tendo uma mala pesada para carregar a vida toda.

Sua filosofia pode ter seus furos, mas é perfeita para o tipo de vida que ele leva. Ele é um empregado modelo de uma empresa de recursos humanos que o manda por todos os Estados Unidos para, basicamente, demitir pessoas. Ele adora viver de aeroporto em aeroporto, de um quarto de hotel para outro. Sua vida é uma sucessão programada de check-ins, aluguel de carros e programas de milhagem. Ele tem uma meta, que é acumular dez milhões de milhas em seu cartão da American Airlines.

Tudo isso é ameaçado, de repente, pela entrada na empresa de uma jovem psicóloga chamada Natalie (Anna Kendrick) que desenvolve um método mais eficiente e barato de demitir pessoas: pela internet. Ao invés de enviar dezenas de pessoas país afora, por que não fazê-lo via webcam? Bingham acha a idéia péssima, mas é obrigado pelo seu chefe a levar a garota em sua próxima viagem. Ele vai tentar mostrar a ela que demitir pessoas pode ser uma verdadeira "arte" e não pode ser feito diante de um computador.

"Amor sem escalas" é escrito e dirigido por Jason Reitman, que nos últimos anos tem se mostrado um cineasta original e interessante. São deles os filmes "Obrigado por fumar" e "Juno", e "Amor sem escalas" mantém o mesmo tipo de ironia inteligente que Reitman demonstra ao lidar com o modo americano de vida. Nesses tempos de crise permanente no mercado financeiro e nas grandes empresas, é um fato terrível que pessoas como Bingham, cuja função é demitir pessoas, existam e sejam consideradas necessárias. George Clooney está à vontade no papel. Cínico, auto confiante ao extremo, ele acha que tem toda sua vida programada, mas a mesma filosofia desumana aplicada por sua empresa pode ser uma armadilha contra ele mesmo. Há uma cena ótima em que Clooney conhece Alex (Vera Farmiga) uma mulher que poderia ser seu alter ego (ou, como ela mesma descreve, ela é como ele, mas com uma vagina). Os dois ficam flertando no bar do hotel e ela fica impressionada com o tamanho do "documento" de Clooney, ou melhor, com seu cartão de milhagens. Eles transam e, metodicamente, cada um com seu notebook, tentam descobrir quando e em que parte do país eles podem se encontrar novamente. Mas será que tudo são apenas negócios? Não há nenhum sentimento envolvido? E quando o espectador acha que já previu o final do filme, há até algumas pequenas surpresas escondidas.

Reitman reutiliza alguns atores de seus filmes anteriores para pequenas papéis, como J.K. Simmons e Jason Bateman (ambos de "Juno"), ou Sam Elliot (de "Obrigado por fumar"), mas o filme é sustentado por George Clooney. O roteiro (de Reitman e Sheldon Turner) levou o Globo de Ouro na categoria, e o filme é uma das apostas para o próximo Oscar.